GUIA PRATICO DA DESPEDIDA, 2021

 

Neste trabalho em andamento, proponho uma reflexão sobre a morte e a forma como múltiplos rituais de luto são constituídos no Brasil. Como ponto de partida investigo a Indústria responsável por prestar todos os serviços ligados à morte e que direta ou indiretamente constrói e modifica modos e rituais de despedida de uma sociedade ao longo do tempo. 

 

Minha pesquisa deu início quando fui ao meu primeiro velório. Minha tia avó tinha acabado de morrer em um dia quente e triste de março e quando chego a cerimonia , a primeira cena que vejo é uma tia próxima ao caixão tentando desesperadamente consertar um castiçal de plástico com lâmpadas artificiais que simulavam chamas de fogo. Todos ali presentes, estabeleciam atividades e responsabilidades imaginárias para ocupar o tempo. Minha outra avó cumprimentava todos os convidados com o afinco de uma boa anfitriã em dia de festa. 

 Pregada na parede, algumas  pinturas impessoais de paisagens imaginárias. Em uma mesa pequena ao canto, uma térmica de café e um pratinho com biscoitos secos descansavam sem que ninguém os consumisse. Parentes circulavam ao redor do caixão em intervalos espaçados, e toda a atmosfera soava como uma melancólica festa de natal, dentro de uma repartição pública. 

Estes espaços em sua maioria falam de uma burocracia higienizada. São territórios impessoais e de certa maneira sem graça; salas de escritório, repartições, porta retratos de plástico e corredores de luz branca sem fim. Em uma visita guiada a um cemitério-parque recebo um folder de papel com os dizeres ‘Guia Prático da Despedida’. 

 

Durante este processo todo me questiono se a fotografia realmente dá conta de dialogar com morte (mas será que qualquer outro suporte conseguiria?). Me atrai a maneira como a logística e a espacialidade desse tipo de espaço é construída com tantos elementos ordinários e burocráticos, em contrapartida a algo tão complexo e misterioso quanto a morte e o morrer. 

Outro dia perguntei a um homem que trabalha no café de um crematório se ele tem medo de morrer e ele me diz que morre de medo - o que quebra completamente minha segurança em pensar  que talvez pessoas que trabalham diretamente com a morte, tenham um pouco menos de medo do que eu. Por algum motivo estranho, muitos dos lugares que visito estão em reforma e expansão.Penso na cidade de São Paulo, e em todos os lugares violentamente soterrados para dar espaço a uma nova arquitetura agradável e funcional. Algum dia, muito em breve - todas as cidades vão se parecer. 

 

PRACTICAL GUIDE TO FAREWELL

In this ongoing work, I propose a reflection on death and the way in which mourning rituals are constituted in Brazil. As a starting point, I investigate the Industry responsible for providing all services related to death and which directly or indirectly builds and modifies ways and rituals of farewell of a society over time. ​

The research started  when I went to a funeral for the first time in my life. My great aunt had just died on a hot and sad summer day.  When I  got to the ceremony, the first scene I see is an aunt next to the coffin desperately trying to fix a plastic candlestick with artificial light bulbs that simulate fire flames. Everyone present there was establishing imaginary activities and responsibilities to occupy their time. My  grandmother greeted all the guests with the enthusiasm of a good hostess on a party day. Nailed to the wall, some impersonal paintings of imaginary landscapes. On a small table in the corner, a thermos of coffee and a small plate of dry biscuits rested without anyone consuming them. Relatives circulated around the coffin at spaced intervals, and the whole atmosphere sounded like a melancholy Christmas party inside a public office.

Most of these spaces are related to a hygienized bureaucracy, they are impersonal and somewhat dull territories; office rooms, plastic frames and endless corridors of white light. On a guided tour  to a park-cemetery I receive a paper folder with the words 'Practical Guide to Farewell'.

During this whole process, I wonder if photography is really capable of dialoguing with death (but could any other medium be able to?).

 

Here, I´m attracted to the way in which the logistics and spatiality of this type of space are built with so many ordinary and bureaucratic elements, in contrast to something as complex and mysterious as death and dying. ​ The other day I asked a man who works in a crematorium café if he's afraid of dying and he tells me he's scared to death - which completely breaks my confidence in consider that maybe people who work directly with death are a little less afraid than me.

 

For some strange reason, many of the places I visit are undergoing renovation and expansion. I think of the city of São Paulo, and all the places violently buried to make room for a pleasant and functional new architecture.

Someday, very soon - all cities will look alike.