Jatobá I 2019

Fotografia e Video

Este é um trabalho sobre uma cidade inventada, sobre gestos inacabados, uma piscina de
quintal de água parada e um canto baixinho e triste; canção antiga de samba. Dois leões e um
dinossauro de resina guardam os portões desta ficção que invento em uma tentativa de me
relacionar com uma terra onde tudo finda.
Território matriarcal governado por mulheres flutuando no tempo de suas próprias ficções,
uma dose de campari com pedras grandes de gelo e duas rodelas de limão.
História de amor que deu errado.
Alteridade é uma palavra muito forte. Talvez seja impossível ir de encontro ao outro com
tanta convicção.

Esta cidade não tem nome, mas pode-se afirmar que é um lugar quente, esturricado, onde a
chuva chega pontualmente as seis da tarde e não existe sombra ou vento.
Houve um grande incêndio certa vez, as pessoas saíram as ruas para comemorar a paisagem
finalmente alterada, destruída. Todos enlouqueceram, mas era bonito de se ver.

O famoso incêndio virou pintura.

Realizo expedições esporádicas a este território sem nome, inventando um espaço de espera e
falsa calmaria, onde o único relógio existente habita a sala escura de uma casa amadeirada.
Relógio de corda, que insistentemente toca as 12 badaladas desde que se conhece por relógio -
insistindo em uma atividade obsoleta.
Algo está errado mas ninguém consegue explicar o que é.

Ano passado aconteceu o primeiro velório na cidade sem nome. Morrer e desaparecer são
coisas diferentes. Quando a gente morre, vira uma outra coisa, quando a gente desaparece, a
memória perde seu próprio mecanismo de ressignificação . Nunca havia-se visto gente viva até
então morrer. Foi um evento, burburinho. Parecia impossível, a atividade de morrer.

O corpo é um casco mesmo. Loucura da nossa cabeça.

É importante sempre ressignificar a memória que resta, mesmo que esta vire mentira. Mentira e
ficção também são palavras distintas. As palavras estão morrendo, a fotografia não dá mais conta
de suas próprias verdades.

Os mortos dançam a última canção da festa, em um grande salão cheio de confetes.



This is a work about an invented city, about unfinished gestures, a backyard with a pool and a low, sad music; an old samba song. Two lions and a resin dinosaur guard the gates of this fiction that I invent in an attempt to relate to a land where everything ends.
Matriarchal territory ruled by women floating in a time of their own fictions, a dose of campari on the rocks and two slices of lemon. Love story that went wrong.
Alterity is a very strong word. It may be impossible to go into the other with such a conviction.

This city has no name, but it can be said that it is a hot, sturdy place, where the rain arrives punctually at six in the afternoon and there is no shade or sign of wind. There was a big fire once. People went out to celebrate the altered, destroyed landscape. Everyone went crazy, but it was beautiful to see.

The famous fire turned into paint.

Last year the first funeral was held in the unnamed city. Dying and disappearing are two different things. When you die, you become something else, when you disappear, the memory loses its own mechanism of resignification. People had never died before. It was an event, a buzz. It just seemed impossible: the activity of dying.

The body is a cocoon. Madness in our head.

It is important to always re-signify the memory that remains, even if it becomes a lie. Lie and fiction are also different words. Words are dying, photography no longer handle it own truths.

The dead dance the last song of the party, in a large saloon full of confetti.