um retrato de Sandy

Conheço essa senhora chamada Sandy enquanto espero o ferry boat para voltar de Staten Island para Manhattan. Ela simplesmente brota na minha frente, senta-se ao meu lado e me pergunta se posso escrever um bilhete para um de seus vizinhos; uma família Indiana que mora na porta a frente de sua casa. Tira um bloco de notas surrado e uma caneta de propaganda qualquer da bolsa de mão, me entrega e redige com calma; “Favor guardar os sapatos que estão no corredor” – Segundo ela são muitos. Quase cem pares esparramados pelo carpete sujo e mal varrido do casarão de madeira de número 40 na rua Gordon.

Ela usa um casaco de inverno marrom-manchado. É um belo casaco. Plumado, um tanto quanto majestoso. Aposto que tem ombreiras. Já foi chic, hoje pode ser adquirido por 10 dolares em uma loja do exercíto da salvação. No pescoço um medalhão gigante com uma imagem de jesus cristo nas roupas vermelhas e brancas que todo mundo já conheçe. Nos olhos lapis, na boca um batom barato. Nas orelhas brincos dourados. Aposto que são de pressão. 
O sotaque em inglês é difícil de compreender. Consegue ser mais difícil que o meu - se é que isso é possível. Primeiro acho que Sandy veio da França, depois entendo que na verdade foi da Grécia.

Repasso os meus olhos por todo o conjunto por no minimo 10 vezes. Meu coração dispara. Me sinto sortuda, me sinto fotógrafa. Abro um sorriso, tento estabelecer contato. Lembro de todas as minhas aulas sobre fotografar um estranho. Olhar nos olhos. O personagem tem que primeiro de tudo confiar em você. Quais eram os próximos passos mesmo?

Já a chamo de minha personagem como se eu fosse um diretor de teatro pretensioso e decadente - mas nos conhecemos a apenas 10 minutos. Ela não sabe que é um personagem. Eu sempre quis fotografar alguém exêntrico. mais de uma exentricidade não óbvia. É o que dizem, as vezes as oportunidades batem na porta e é tudo uma questão de agarra-las. – esse era a dica número quarto da cartilha do fotojornalismo.

Eu sempre quis fotografar uma simpatica velhinha com roupas de segunda mão e um leve ar decadente. Eu sempre quis fotografar uma senhora que morasse sozinha.

Entrar em sua casa, sentar no sofa estampado de pequenas flores e aceitar a xícara de café quente. Ela se senta ao meu lado e me conta todos os seus segredos. Derrama perda sobre perda entre um bule de café e outro. Se entrega.. Nos abraçamos, criamos uma amizade. A camera – um observador invisível acompanha a trajetória – registrando lágrimas. Fotografando close ups de mãos enrugadas e olhos que observam a fundo.

Peço para fotografa-la. Ela nega com veemencia. Disse que já conheceu um fotógrafo trapaceiro e que não confia mais em cameras. Guardo a máquina, trocamos telefones. Uma semana se passa e novamente entro no ferry em direção a Staten Island com seu endereço em um pedaço de papel. Gosto de Staten Island. Entro em um ônibus que se afunda no meio da ilha e passo por um bosque aonde com certeza um corpo já deve ter sido encontrado, um assasinato cometido e muito provavelmente alguns adolescentes se beijaram enquanto revezam garrafas baratas de gin e um baseado. Pequenos objetos perdidos jogados pelo caminho. As árvores secas de inverno fazem a cidade ficar com esse ar exageradamente melancólico, como se estivéssemos vivendo em um filtro de instagram eterno.

Desço do ônibus. Chego no número que o endereço no papel aponta. Um casarão marrom com janelas brancas que parece impossível se sustentar em pé por conta própria. A estrutura parece torta e qualquer movimento errado pode colocar toda a construção abaixo. Na entrada principal um pesado cadeado deixa todos os segredos trancados. Uma Americana gorda e loira com uma prancheta está esperando ao meu lado na entrada. Tem cara de que trabalha pro servico social. “Nunca atendem a campanhia nessa casa” diz ela.

Ligo para Sandy. Ela aparece com um molho de chaves, uma quantidade extrema de maquiagem e uma versao talvez um pouco mais velha do mesmo casaco da vez anterior. Me pega pelos braços. Abre o portão do cadeado pesado. Ignora a Americana gorda da prancheta. Entramos em sua casa. A porta se fecha com um estalo seco. Tenho medo de morrer e ser encontrada no bosque de Staten Island. Penso se não estou sendo extremamente estupida – como esses personagens segundarios de filmes de terror ruins que morrem na primeira parte do filme, porque resolveram ir ao cemitério sozinhos – a noite. 
Na entrada de sua casa Sandy tem duas estatuas de leões. Herança do Segundo casamento Segundo ela. Os animais que tentam invadir o jardim ficam com medo e sempre recuam.

Estou nervosa. As palmas da mão suam, a garganta seca. Finjo naturalidade. Finjo que estou acostumada a conhecer pessoas nas ruas e ir para suas casas. Finjo que sou a fotógrafa bem sucedida e desenvolta que sempre quis ser. 
A casa de Sandy parece uma caverna mobiliada. A parede é sem reboco, como se toda a estrutura tivesse sido construída em uma rocha. O azulejo despadronizado. Uma única lâmpada pende do teto escuro e balança. A casa amadeirada tem um cheiro estranho, não sei definir o que é. 
Sandy desaparece na cozinha e volta com um bulê de café. Assim como tinha imaginado. Senta-se na minha frente. Espero ela dar o primeiro gole – assim tenho certeza de que nada está envenenado e que não vou ser achada no bosque afinal de contas.

Fotografo a sua casa. Fotografo os leões na entrada e uma assustadora boneca que descansa sentada em uma das cadeiras . Fotografo um quadro de jesus cristo e a televisão ligada, aonde uma série de televisão antiga ensaia risadas no modo mute. Sandy não me deixa fotografa-la novamente. E eu quero tanto. Ela é tão incrivel. Essa seria uma grande foto – Gostaria de explicar isso para ela.

Sandy, você seria uma grande foto. Você seria um grande projeto. Me deixe ficar por aqui e ser parte da sua vida. Você precisa entender o quanto isso é importante. – Mas para quem? Pra mim . (E porque isso importa?)

Ela me conta dos dois casamentos. Ela me conta da irmã que mora em Long Island, e da chegada a América, terra prometida, a 55 anos atrás. Me pergunta se tenho um namorado, digo que sim e nem sei o porque. Talvez ela me deixe fotografa-la se eu tiver um.

Me sinto um parasita interesseiro que busca a imagem perfeita por um momento. Penso que ela poderia muito bem ser amiga da minha avó. Elas conversariam por 5 horas consecutivas provavelmente.

Sandy afirma que quase não tem amigos, e que confia em poucas pessoas. Eu pergunto para ela se ela confia em mim, e ela diz que esta tentando, e que quer ser minha amiga. Fico feliz. Eu também quero ser amiga dela. Eu também estou tentando. 
O café acaba. Ela faz questão de me levar ao ponto de ônibus. Cruza os braços comigo e andamos juntas pela rua gelada do inverno Nova iorquino. Penso que dupla esquisita devemos formar para aqueles que nos observam andando pela rua. Talvez os vizinhos achem que ela é louca. Talvez ela seja um pouco mesmo. Quem sabe eu também seja. 
Talvez ela confie em mim. Eu também posso vir a confiar nela.

Digo que vou trazer vinho da próxima vez. Quem sabe ela me deixe fotografa-la, mesmo que rapidamente. Ela pode ser um bom projeto. Eu quero que ela seja.

Sandy me deixa no ponto e dobra a esquina desaparecendo de vista. Um minuto depois reaparece correndo e agitando os braços. “Ca-mila! Esse é o ônibus que você tem que pegar, esse é o ônibus certo” ela grita com o estranho sotaque que eu suponho ser grego. As pessoas no ponto olham para ela e depois para mim. Talvez ela seja mesmo louca. Talvez ela realmente queira ser minha amiga.